A. H. de Oliveira Marques (1933-2007)

Nair Alexandra
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Aclamado de forma unânime como um dos maiores medievalistas portugueses, influenciou gerações de historiadores. António Henrique Rodrigo de Oliveira Marques faleceu no dia 23, em Lisboa, aos 73 anos. Uma vida marcada por larga actividade na docência, pela intervenção pública e por vastíssima produção bibliográfica, que inclui diversas obras de referência.

Injusto seria, contudo, falar «apenas» no medievalista, pois a História Contemporânea e, em particular, o período da I República ocupou muito do seu trabalho, tendo deixado também aí um legado notável. Porque Oliveira Marques foi, acima de tudo, um historiador, na acepção que a célebre escola francesa dos «Annales» deu à palavra: um investigador do passado que, exactamente pela ligação à História, não pode abdicar de ser um homem do seu tempo, atento à realidade contemporânea. Terá sido por isso que participou activamente a favor dos estudantes na crise académica de 1962, o que viria a gerar-lhe dissabores vários, fazendo-o abandonar a docência da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, regressando à vida universitária portuguesa só após o 25 de Abril.

Nascido em São Pedro do Estoril a 23-8-1933, Oliveira Marques licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas em 1956. Estagiou na Universidade de Würzburg, na Alemanha, e em 1957 inicia a docência na Faculdade de Letras. O doutoramento chegou em 1960, com a dissertação Hansa e Portugal na Idade Média, trabalho «pioneiro», como refere a medievalista Maria José Ferro Tavares. Cinco anos depois, e na sequência da crise académica, saiu de Portugal para dar aulas nos EUA, voltando em 1970. Entre Outubro de 1974 e Abril de 1976 foi director da Biblioteca Nacional. No final da década de 70 ajudou a fundar a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, na qual criou o Departamento de História, de onde sairia já nos anos 90.

Recebeu distinções importantes, como o doutoramento honoris causa pela Universidade de La Trobe, em Melbourne (Austrália), em 1997, e, sobretudo, a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, entregue pelo Presidente da República, em 1998. Na Maçonaria desde 1973, Oliveira Marques ocuparia aí cargos importantes, dedicando-lhe também trabalhos de investigação.

Da produção historiográfica ficam dezenas de obras, tal como a História de Portugal (1973, refundida em três volumes em 1981 e já traduzida para várias línguas, incluindo japonês e polaco); como notou Luís Reis Torgal (Dicionário de História do Estado Novo), no início dos anos 70 «este importante historiador, tão produtivo como variado nas suas análises, começou a abordar temas contemporâneos em algumas das suas obras». E a Nova História de Portugal, que dirigiu em parceria com Joel Serrão, além da Nova História da Expansão Portuguesa (em ambos os casos há volumes por publicar) e, já em 2003, com João José Alves Dias, o Atlas Histórico de Portugal e do Ultramar Português. Registemos ainda Introdução à História da Agricultura em Portugal, Guia do Estudante de História Medieval e A Sociedade Medieval Portuguesa. Maria José Ferro destaca estas obras como essenciais e recorda a «investigação inédita. Em diversos aspectos, Oliveira Marques foi pioneiro na História social, na senda de Virgínia Rau».

Mas os alvores republicanos constituíram, como já foi referido, outro dos seus grandes interesses. A Primeira República Portuguesa e o Guia da Primeira República Portuguesa estão aí para o demonstrar. Também nessa área o historiador abriu caminhos: «Ainda durante o Estado Novo, ele fez uma abordagem bastante neutral» daquele período, afirma Paulo Guinote, mestre em História Contemporânea: «Foi o primeiro autor a apresentar a I República como um objecto da História e não da política», acrescenta. A sua tese «Quotidianos Femininos-1900/1933» foi orientada pelo professor, que Paulo Guinote recorda como alguém que «não impunha condicionamentos de ordem metodológica nem ideológica». Os seus alunos lembrarão sempre a sua capacidade de comunicação estimulante e a forma como ele aproximava a realidade quotidiana de homens e mulheres de séculos anteriores - o citado A Sociedade Medieval Portuguesa, dedicado à vida quotidiana, é um exemplo desse estilo.

(Expresso , Lisboa, 27 Jan. 2007, supl. Actual )

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