António Costa Pinto
Professor universitário
acpinto53@hotmail.com
Para várias gerações de portugueses, A. H. Oliveira Marques, falecido esta semana, foi sobretudo o autor da História de Portugal. Uma das mais legíveis, equilibradas e eruditas Histórias do País escritas no século XX, quase única entre as dirigidas ao leitor médio, essa miragem absoluta das editoras comerciais. A sorte destes leitores passou também pelo facto de esta História ser inicialmente escrita para um público de língua inglesa, que exige dos autores algum respeito pelo público, mas a conjuntura da sua primeira edição portuguesa, publicada ainda nos anos finais da ditadura, acrescentou-lhe o toque de frescura. Bastava aliás ser uma obra escrita de forma objectiva por um historiador profissional para marcar a diferença.
Oliveira Marques conseguiu cedo muitos estudos eruditos destinados a especialistas, com obras de síntese que ainda hoje se conseguem ler. Acasos do seu percurso político-intelectual, de matriz republicana e maçónica, fizeram-no escapar ao marxismo vulgar dos "modos de produção" e aquele "positivismo" que lhe criticavam na época acabou por lhe ser caracterial. Marques era um historiador que acreditava na "objectividade" do historiador, investigando com base nos documentos do passado. Não quero dizer com isto que não tivesse simpatias declaradas na História Contemporânea, nomeadamente por Afonso Costa, esse "pai tirano" da I Republica, mas estava longe das manipulações ideológicas mais vulgares de muitos colegas seus.
Quando olhamos para muitas obras de História Contemporânea de Portugal escritas nos últimos 30 anos, sobretudo as mais conhecidas do grande público, parece até que as grandes querelas sobre o nosso passado recente ficaram mais ideológicas. A diferença é que ninguém está interessado nelas. Mas qualquer leitor atento notará como para muitos Portugal estava a caminho do paraíso democrático em finais do século XIX quando essa "corja" republicana fez uma revolução. Ou como para outros Salazar era um pró-nazi, como se não existissem outros regimes igualmente sinistros. Para não esquecer os historiadores que todas as semanas nos lembram que o drama português é estar no continente europeu e não no americano. Perante eles ainda vamos ter saudades do "positivismo" de Oliveira Marques.
(Diário de Notícias, Lisboa, 27 Jan. 2007, p. 56)